Friday, October 28, 2005

Dueto


Eu sou todos os passos em que o meu corpo se contorce e esperneia para caber nos teus dedos quando eles torpeçam em mim e me pedem que escolha um caminho onde a vida desagua na palavra bifurcação. Mas que passos são esses? Ensina-mos. Diz-me. Que passos são esses? Os meus dedos encolhem cada vez mais, estão tão pálidos e sem vida! Diz-me que passos são esses. Se gritar sem precisar de usar a voz, descanso no silêncio que te diz que esses passos são os pedaços de vidro onde as palavras deslizam e perdem o significado porque tombam para fora de nós. Mas eu preciso da voz para gritar. Não quero esses passos. Não quero. Deixa-me antes seguir pelo vale onde o corpo come o leão. Consegues dar-me o silêncio sem palavras? Consegues? Não consigo dar-te nada sem palavras. As palavras são o silêncio intacto que geme entre os pedaços de vidro por onde tu escoas. A voz é onde me escondo, onde o tempo imortaliza esse silêncio de onde as palavras jorram. E se o vidro estilhaça? E se a voz falha? E se o silêncio mente? Eu vou sair do vidro. O meu sangue tira-lhe a transparência, os meus gritos mudos fragmentam-no. Se as asas te rasgarem a pele, podes sair do vidro mas perdes o teu reflexo onde o silêncio não mente nunca e não precisa de voz para eclodir. Se as asas te rasgarem a pele, podes aprender, dentro da impureza do sangue que elas vertem, a tropeçar no céu. Quase me convences mas não vou. Sou caprichosa e arrogante para te aceitar a ti e às tuas palavras. Vou para o inferno mas, sem as tuas palavras. Carregas-nos a todos dentro desse silêncio onde elas dançam e elas deslizam e as chagas que elas infligem são o fogo e não podem arder, não podem diluir-se num dor que fica sempre do lado de fora do corpo, porque dentro dele o silêncio ocupa o espaço do mundo inteiro. Porque eu sou esse silêncio e porque tu adormeces dentro dele quando no teu rosto embate a palavra cansaço. Dá-me então as palavras. Dá-mas. Não, não dês. Não me convenças com as tuas palavras a aceitar as palavras. Recuso as palavras e por isso, não escrevo mais...


E no silêncio, as palavras copulam.

Escrito por Anok@s e Andreia

1 Comments:

Blogger Wolf Spirit said...

:S Sinto k me tou a repetir, mas pontus cá vai. hihihi


A tua escrita, já a conheço de ginjeira, mas a da andreia é-me completamente nova, não desgostei, tenho de reler para compreender melhor tal como a liliana :S

Mas voçês encaixam mt bem uma na outra em tudo, tanto na amizade como na escrita, mt bom, continuem a fazer estes duetos mágicos, k venho ca comentar mais vezes, prometo.

Beijos
lobito

3:18 AM  

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